domingo, 2 de março de 2008

do amor, do prazer, da amizade e do casamento

 

 

Peço aqui uma pausa sobre todas as conjecturas em termos de desejos e sentimentos. Uma pausa apenas, num mundo que não existe, nem vale a pena, sem desejos nem sentimentos. Os desejos nos levam adiante, nos conduzem além do racional usando de todas as nossas forças e fragilidades. O caminho da Sefirot, que se denomina Os Amantes é o caminho da transformação.

O Roberto Freire costuma dizer que "sem tesão,não há solução". É esse o título de um de seus livros. Mas o que é tal tesão? É o tesão que sentimos, aquele desejo vazio, dos olhares que se cruzam em uma calçada da vida? Daqueles que se cruzam em uma reunião social? O tesão que sentimos por um ícone do desejo, uma artista de cinema, um paradigma todo certinho? Não, esse é um tesão sim, mas não é o tesão que leva à transformação. Seria esse tesão que faz nos mover, sair da inércia cotidiana? Não acho que não. A maioria desses pequenos tesões que sentimos ao percorrer do caminho diário são incapazes de nos fazer mover mesmo até eles. Eles são efêmeros e ali mesmo morrem.

Com a ajuda da Astrologia podemos entender um pouco mais sobre as diferentes variações do amor e do prazer... e entender um pouco mais sobre o casamento e relações semelhantes. O mundano na Astrologia (e tudo isso pertence ao mundano) é representado pelas Casas Terrestres. E nessas tais casas precisamos focar a Casa 5, a Casa 7, a Casa 8 e a Casa 11. No meu entender essas 4 casas terrestres descrevem os principais nuances de uma vida afetiva saudável e honesta.

A Casa 5 representa o prazer. O prazer puro que não transcende e nem transforma. É uma brincadeira de delícias. Aqui realizamos toda a diversão e o sexo é como um jogo de desafios de extrair de si e do outro, todas as delícias possíveis e todas loucuras de perder a cabeça e as responsabilidades. A Casa 5 é também a casa das crianças. Aqui transformamos o amor em um parque de diversões. Tudo é leve, tudo é puro, tudo é simplesmente prazer. A Casa 5 é o reino do egocentrismo dadivoso. Aqui ninguém se perde, nem perde o caminho de casa. É como sexo entre adolescentes.

Vamos pular para a Casa 8. A Casa 8 é densa. Se a Casa 5 representa a sexualidade superficial, a Casa 8 representará os domínios da sexualidade profunda. Se a Casa 5 é a fogueira, a Casa 8 será as águas putrefatas de um pântano. A Casa 8 envolve o nosso eu profundo, o nosso ser, e nos coloca a mercê de nós mesmos. Sim, o Outro, há o Outro. O Outro é aquele que não compreendemos, mas que nos leva a ações que jamais seríamos capazes de ter se não houvesse esse Outro catalisador de nosso ímpeto para a transformação. Sim, esse Outro que não compreendemos e nos cativa inexplicavelmente, capaz de nos fazer mover e até a mudar nossos hábitos e manias mais enraizadas, encardidas que nossa roupa suada. Esse tesão não é um tesão vulgar. Ninguém aposta a sua cabeça com o Diabo vulgarmente. Sim, porque estamos mergulhando naquilo que não compreendemos. E aí surgem os nosso instintos mais primários para nos empurrar nos levar e conduzir, sem qualquer racionalidade explicativa.

Na Casa 5 o amor é meramente prazer. É como um homem que procura tal prazer nos braços de uma prostituta. É como aquele que não tem coragem para tal e simplesmente se masturba. Falo de homens e mulheres. Porque o prazer comprado tem sua própria ética. Como os jogos tem suas regras, os bordéis formais e informais também o tem. E a regra aqui é manter-se no casual sem qualquer aprofundamento mais denso.

Na Casa 8 o prazer é o risco da morte. Aqui se destroem realidades. Aqui não sabemos lidar com os negócios mais simples da vida mundanas nos quais tudo tem um preço. E um preço reduzido a unidades monetárias. Não. Aqui o preço é a própria vida. Aqui o sujeito que entra, jamais será o mesmo depois. Algo de si morre pelo caminho, mas obviamente algo também nasce. Aqui aposta-se tudo e o que vem em troca não é mais comparável. Não se tem um sentido compensatório objetivo. Mas a Casa 8 é a casa da transformação, é o que nos tira da inércia. Sim aqui o tesão tem uma solução, ao contrário do prazer da Casa 5, aqui o tesão não é simplesmente matéria. Envolve o espírito, ou seja, o nosso próprio ser e seu porvir.

A Casa 5 e a Casa 8, entretanto, são domínios íntimos. Envolvem decisões personalíssimas e que não dão respostas, portanto, para terceiros. As respostas para terceiros são estabelecidas pela Casa 7 e pela Casa 11.

A Casa 7 é a casa que representa o casamento. O casamento não é propriamente um fruto da irresponsabilidade da Casa 5 ou da inclemência da Casa 8. É outra relação e que poderá, entretanto, ter relações de prazer e de transformação. A Casa 7 é a casa das associações. Aqui formalizamos uma relação como formal e através desta forma assumimos responsabilidades. A Casa 7 é uma formalização de uma sociedade. Para o mundo passamos a agir em conjunto. Aqui respondemos solidariamente pelas nossa ações no mundo e para esse organismo teórico que chamamos de sociedade. Como uma firma, o casamento é uma empresa. E nele há suas regras de gestão e atuação. No casamento o prazer se transforma (pelo menos teoricamente) em filhos. E os filhos são a outra interpretação que damos à Casa 5. Sublima-se, pois, o prazer para o prazer dos filhos.

A Casa 7 descreve uma posição de amor? Não obrigatoriamente, mas é melhor que sim. Porque só por amor podemos abrir mão de outros prazeres e possibilidades. A Casa 7 sozinha não é a garantia de absolutamente nada a não ser de um compromisso e obrigações formais. Isso em seu estrito sentido, mas nada na vida é estrito. Tudo trás em si uma infinidade de sentidos.

A Casa 11 representa a amizade. Enquanto a Casa 7 representa relações formais, a Casa 11 nos fala de relações das mais informais possíveis. O compromisso e a responsabilidade não são rígidos e em nome da amizade tudo se pode compreender e, provavelmente, até perdoar. Mas entretanto existem aqui elos informais talvez mais fortes que os formais regidos pela Casa 7.

A Casa 11, como a Casa 7, é um lugar de relações. A Casa 5 e a Casa 8 não são lugar de relações: são algo que podem existir dentro das relações. Ou não.

O amor profundo e o prazer superficial não tem nada a ver com as relações que estabelecemos. O prazer pode acontecer na Casa 7 ou na Casa 11, ou mesmo em nenhuma delas. Para quem não sabe, a Casa 3 rege outra forma de relação: as relações não escolhidas. O casamento e a amizade são relações escolhidas: nós escolhemos nosso cônjuge e nossos amigos. Na Casa 3 estão as relações não escolhidas: vizinhos e parentes próximos (primos, por exemplo). Nos interessa aqui aquilo que escolhemos.

Estamos aqui com uma questão moral e com uma questão ética. Uma questão essencialmente de escolha. A Casa 5 é fútil por natureza. A Casa 8 pode ser fundamental para a nossa própria coerência pessoal. Mas como elas funcionam quando não há mais nem prazer e nenhum ímpeto para a transformação?

 


 

antes de ir embora

 

 

Antes de ir embora
pense e sinta.

Por quê?
Não há culpa.
Só há beleza.

Por que eternizar o encontro
num estigma de saudade?

Nada na vida é certo.
Não sabemos de nada.
Nada pode ser dito,
nem mesmo pelo amanhã.
Nada é impossível.

Numa sinceridade
plasmada em nós.
Num sentimento
perene, inteiro, completo.

O sentimento que nos liga
eu e tu, só nós dois,
para sempre.

 


 

as palavras são pequenas



as palavras são pequenas
nesta madrugada vazia
em tom fúnebre

perderam-se os ocasos
os limites das finitudes
os horizontes
as fronteiras
e permanecemos
distantes

assim se foi
o tempo do encontro

escoaram-se todas
as possibilidades de elos
que brincaríamos
de serem eternos
perpétuos
não há mais tempo

e permaneceremos vazios
um do outro
no desencontro perpétuo das mãos
vazias de sentido
e que nunca se tocaram
e estão agora
abanando o adeus
sim, adeus.

mas, quem se importa?







ser par e ser ímpar

O que é ser ímpar? Ser ímpar é ser aquilo que se é, sem ter que fazer concessões, ou seja, ser aquilo o que se realmente é.

Se não for assim, não haverá par; cedo ou tarde tudo irá para o espaço, porque ninguém tolera ter seus desejos massacrados por muito tempo.

Se ser par é abrir mão de si mesmo, não pode dar certo.

Mas ser ímpar significa ser só?

Se ser ímpar-ímpar-ímpar é uma desgraça que só. Então é necessário pensar melhor.

Acho que desde os 20 anos de idade nunca fiquei muito tempo só. Fui feliz em alguns momentos sublimes, fui infeliz em infernos de curta duração. Tudo entremeado por momentos de normalidade cotidiana. A maior parte da nossa vida acontece mesmo nesses momentos de normalidade cotidiana.

Se ser ímpar é ruim, pior é ser par quando não se está inteiro na coisa, quando é necessário ser o que não se é, quando a gente se sente parte de uma ópera bufa. Quando o outro lado faz exigências de mudanças, ou exigências de qualquer outra espécie que não permitem que o ser se desenvolva por si só.

Uma vez um amigo me disse: "ninguém entra no Paraíso de mãos dadas". Cada um tem seu próprio caminho, cada um o seu plano de vôo. Os desejos e vontades são personalíssimos, embora possam ser compartilhados em alguma forma de sintonia.

Mas, se encontramos alguém com quem vale a pena seguir junto boa parte da jornada, isso é bom. Mas é preciso entender a divindade que mora no outro. E saudá-la diariamente com o mais profundo respeito.

Nem que seja para ir embora.




Se um dia você for embora
Não pense em mim
Que eu não te quero meu
Eu te quero teu
Se um dia você for embora
Vá lentamente como a noite
Que amanhece sem que a gente
saiba exatamente
Como aconteceu
Se um dia você for embora
Ria se teu coração pedir
Chore se teu coração mandar
Mas não esconda nada
que nada se esconde
Se por acaso
um dia você for embora


em itálico: Danilo Caymmi & Ana Terra in "Meu Menino"



que falam demais

 

Eu sempre tive receio
de me tornar
uma dessas pessoas
que pensam demais
que falam demais
que escrevem demais
que falam sem parar
tentando demonstrar
suas teses

Eu nunca aguentei
monólogos professorais
nem em sala de aula
nem em mesa de bar

Talvez seja porisso
que eu escrevo assim
em formato vertical
como se fosse poema
mas que na verdade não é
não tem a pretensão de ser
apenas é para deixar fluir
e alguém interceptar
e introduzir algo
se quiser

Eu sempre me seduzi
por pessoas que falam pouco
que terminam suas frases
com reticências
com interrogações
que qualquer um pode concluir
que qualquer um pode continuar
interagir
abandonar
simplesmente calar
ou desandar em seu silêncio
em outro divagar
outros caminhos
ir além

Assim
como se natural fosse
um multipensar
no multiverso que é
um infinito de ser

Eu sempre amei as pessoas
que falam pouco
que pensam (até) pouco
que não são dadas a longas reflexões
a partir de banalidades
porque o banal é para ser banal
e respeitado como tal
e não tornado uma lógica
uma filosofia
uma escolástica
daquelas que cansam
só de pensar

Eu sempre gostei de pessoas
que apenas sorriem
que me olham nos olhos
e assim me respondem
que simplesmente entenderam

Eu sempre gostei dos silêncios
das madrugadas
da solidão noturna
onde a distância parece transbordar
os umbrais da cidade

Sempre amei essas pessoas
que assistem o mundo em silêncio
sinto ali uma compreensão profunda
da ignorância própria e do mundo

Gosto da pessoas
que apenas sorriem
que entregam a cumplicidade
de cultivar a simplicidade
de tudo

E compreendi
para mim mesmo
que pensar demais
que falar demais
dissecar complexidades
tentar explicar para si mesmo tudo
é uma fraqueza
uma profunda ignorância
do infinito universo