domingo, 11 de janeiro de 2009

água-furtada







Enquanto o vento passa atropelando
as madeiras toscas de um alpendre nu.
Enquanto doira de sol a água-furtada.

Novelos de macegas
adentram a casa.
Ruído e mau cheiro
adentram a casa.

No avarandado pretejado pelas sombras
uma mulher nua e branca como um véu,
se estira no soalho tosco de tábuas

e se deixa penetrar
pelo sol, devagar
Se deixa possuir
vagarosamente pelo sol.

Eu poderia miscigenar um sangue,
penetrar na tua ante-sala
Fazer-te gemer, fazer-te morder,
Fazer-te...

Enquanto a sentir no vestíbulo deste mundão,
toda a tristeza muda de um pomar neurótico.
Num acasalamento frígido e letárgico

a carcomer a mente
numa chaga viva.
A amargar os restos
em todos os dias seguintes.




sábado, 27 de dezembro de 2008

Quem é aquela mulher?





Deixe que eu te leve no sonho.
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.

Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.

Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.

Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?



Metamorfose Blues




O pensamento, essas mãos remotas
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o intangível.

Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma nas manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas.
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.

As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos.
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O bar




Numa esquina da rua,
escancarado, há um bar.
De longas prateleiras,
garrafas a convidar,
para longas bebedeiras
nas noites de luar.

Sempre que lá passo
há um gato a ressonar.
Garçom parado ao canto,
balcão vazio a brilhar.
Passo e se oferecem
mil lugares prá sentar.

Mas sempre que por ali eu passo,
mesmo que queira entrar.
Mesmo que ouça o chamado,
não faço mais que olhar.
Como se fora um cenário,
fingindo que é lugar


desesperança




essa desesperança
que bate e derruba
acaba com o ânimo
e cala as palavras

e o silêncio chega
como uma ausência
e toma conta de tudo
envolvendo a noite

gostaria de voar
nesta madrugada
encontrar meu sonho
sem pedir licença

mas o grito cala
a cabeça lateja
os músculos retesam
e eu só quero dormir