terça-feira, 4 de junho de 2013
abra as portas
Passagem
Vesti-me de manhazinha com a roupa habitual de meu dia-a-dia. No entanto a cela parece que me leva a caminhos até então indecifráveis. Não sei onde minha nave quer me levar. Nem sei se quer, simplesmente habito.
Habito e, dentro dela, pareço ser outro mundo. Um outro mundo com outro modo de ser. Perplexo. Deixo-me acompanhar da vida que passa. Vou dentro de algo e algo vai dentro de mim. São pequenos universos irreconhecidos. Sou eu que vou no rumo do tempo. Sou eu quem sou percorrendo a minha jornada. E esta jornada não sou eu que traço.
É apenas a vida que se desenvolve e eu vou!
terça-feira, 9 de abril de 2013
Aerial America
A abordagem da série é feita pela filmagem do alto, a partir de helicópteros, com tomadas sempre de cima, aéreas, e que mostram muito bem os aspectos urbanos, a arquitetura, as instalações, e uma exuberante natureza, magnificamente preservada e e que se intermeia com as cidades e em suas periferias.
A série não fica apenas nas imagens. O narrador vai contando histórias das cidades e regiões onde aconteceram importantes eventos. E assim vai conjugando imagens e acontecimentos, residências de americanos ilustres do passado, monumentos, fábricas, rios, pontes, florestas, montanhas, vales etc.
O primeiro programa foi pelo arquipélago do Hawaii. O segundo foi pelo Estado de Connecticut. O terceiro, acabei de ver, foi pelo Estado de Virginia.
É um trabalho de propaganda, eu sei. Provavelmente é para estimular o orgulho nacional, quem sabe. Mas qual é o problema de admirar algo que funciona magnificamente e com a beleza natural e desenvolvimento organizado entremeados. Acho que o americanos têm razão de serem orgulhosos de seu país.
E confesso que fico de boca aberta. Eu, que passei a maior parte da vida torcendo a cara para eles. Agora, quando a idade avança, consigo libertar-me do ranço esquerdista que tantos anos me acompanhou. E, agora, eu vejo este programa com desprendimento que me permite admirar e, com uma pontinha de inveja, acompanhar e admitir que é uma beleza enorme, aquilo lá.
terça-feira, 27 de março de 2012
Sobre a Dor
Por ter vivido intensamente dores profundas, talvez eu saiba viver profundamente, também, as minhas alegrias de leveza e alguns prazeres rasgados. Não posso me queixar da vida e nem mais rasgar as vestes. Não me queixo da vida porque a vida é, antes de tudo soberana. Deve ser reverenciada como parte do sublime mistério do ser.
Hoje eu não quero falar de alegrias, nem de viscerais prazeres. Eu - hoje, só hoje - estou achando uma extrema tolice máximas que dizem que a felicidade começa dentro de si mesmo. Isso poderia ser verdade em universos perfeitamente egocêntricos. Eu não sou eu mesmo. Eu apenas sou quando sou no mundo. O mundo não muda dentro de nós. O mundo interage com o ser e o se se transforma só quando em contato com o mundo. E o mundo não pode estar dentro de nós.
Nesse estado de consciência eu percebo que a sensibilidade para com o outro está muito relacionada com a nossa vivência da dor. Escute o Canto Triste (Edu Lobo - Vinicius) e perceba como transborda uma amargura que não pode ser mensurada. Descreve toda a distância que existe na morte e a saudade de um amor que persiste, infinito. Não é uma tristeza vã, nem um culto à dor. É um reconhecimento da extrema fragilidade humana frente ao infinito. Ouça Pra Dizer Adeus (Edu Lobo - Torquato Neto) e deixe-se envolver por uma despedida sofrida, mas conscientemente necessária. E ainda há isso aqui para informar que há dores que são mais que inclementes. Dores que são insuperáveis.
Não, não é um culto à dor. É um profundo respeito. Um respeito que é quase uma oração ao cotidiano daqueles que sofrem. Não, não é uma busca de cumplicidade na dor. É uma empatia com vontade de ser bálsamo de silêncio. Porque a dor maior é a dor silenciosa. A dor que não sai no jornal.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Fenomenologia e Método
junho de 2005
1. As Cinco Fenomenologias
Segundo Moreira (2002:73)[1], citando Spiegelberg, a Fenomenologia pode ser classificada em cinco tendências filosóficas dominantes e sucessivas — que muitas vezes se interceptam — trazidas do pensamento do Século XX.
São elas:
• Fenomenologia Descritiva.
• Fenomenologia Realista.
• Fenomenologia Constitutiva.
• Fenomenologia Existencial.
• Fenomenologia Hermenêutica.
A Fenomenologia Descritiva é a fenomenologia de Edmond Husserl em seu sentido mais puro. Introduzida pela obra Investigações Lógicas (original alemão de 1900-1901), essa fenomenologia procura simplesmente descrever o fenômeno, sem propriamente interpretá-lo. É considerado o tronco fundamental da fenomenologia.
A Fenomenologia Realista...
... enfatiza a busca pelas essências universais de vários tipos de assuntos, incluindo as ações humanas, os motivos e os selfs. (Moreira, 2002:73).
Esse caminho fenomenológico foi seguido por diversas correntes do Direito e outras ciências humanas e artísticas desde quando surgiu, por volta de 1920, na Alemanha.
A Fenomenologia Constitutiva origina-se de outro texto de Husserl: Idéias Relativas a uma Fenomenologia Pura e a uma Filosofia Fenomenológica — original escrito na Alemanha em 1913. Essa corrente se desenvolve com a aplicação dos métodos denominados de redução fenomenológica[2] e redução eidética. Tais procedimentos...
... envolvem suspender a aceitação do estado pré-dado da vida consciente como algo que existe no mundo. (Moreira, 2002:73).
Busca-se, assim, uma base final com a ausência de conceitos previamente formulados para o estudo da natureza — ou o mundo — e as ciências positivas que a estudam.
A Fenomenologia Existencial deriva dos estudos de Martin Heidegger, publicados no original de Ser e Tempo (1926-1927). Na verdade esse movimento se desencadeou na França à revelia de Heidegger a partir da leitura (e interpretação própria) de Ser e Tempo realizada por pensadores franceses, entre os quais podem ser citados Jean-Paul Sartre (especialmente em O Ser e o Nada) e Maurice Merleau-Ponty (especialmente em Fenomenologia da Percepção).
Finalmente, a Fenomenologia Hermenêutica que é método de Heidegger propriamente descrito em Ser e Tempo (Heidegger, originalmente publicado em 1926-1927), segundo o qual a existência humana tem uma natureza interpretativa. Foi também continuado e aprofundado por Hans-Georg Gadamer (especialmente em sua obra Verdade e Método). A diferença deste método é justamente a ênfase dada à hermenêutica, ou seja, o foco na interpretação.
Sobre este último método irei aprofundar, pois ele é base para as minhas últimas investigações.
2. Uma Síntese do Método — uma tentativa de generalização da fenomenologia
Spiegelberg, em sua obra sobre a história da fenomenologia, The Phenomenological Movement (Spiegelberg, 1971:653-701), procura dar um fechamento metodológico à Fenomenologia. Busca uma síntese de método, embora reconheça que existem muitas diferenças entre as diversas teorias fenomenológicas que se desenvolvem até a atualidade.
— Como separar uma fenomenologia entre tantas fenomenologias?
Moreira, referenciando Spiegelberg, afirma que...
... apesar de tantas diferenças, o que há de mais característico na fenomenologia é o seu método. (Moreira, 2004:96).
Neste sentido Spiegelberg busca agrupar em etapas aquilo que considera como sendo as características essenciais do método fenomenológico. Nessa tentativa, ele identifica então sete passos seqüenciais, cada qual com seus procedimentos específicos. Ressalva, entretanto, que não são aplicáveis à pesquisa empírica. Destinam-se a estudos de natureza filosófica[3].
Os passos sugeridos por Spiegelberg — sua obra citada — são os seguintes:
a) Investigação de fenômenos particulares.
b) Investigação de essências gerais.
c) Apreensão de relações fundamentais entre as essências.
d) Observação dos modos de dar-se.
e) Observação da constituição dos fenômenos na consciência.
f) Suspensão da crença na existência dos fenômenos.
g) Interpretação do sentido dos fenômenos.
Os três primeiros passos são considerados por Spiegelberg como sendo de aceitação unânime por parte de todos os que estudam e trabalham com a fenomenologia. Os passos de "d" a "f" apresentam defensores e contestadores. O passo "g" é a chamada redução fenomenológica e o passo "g" é, fundamentalmente, ligado à fenomenologia hermenêutica, desenvolvida por Heidegger em Ser e Tempo (1926-1927).
Moreira (2004:97-102) irá sintetizar o contexto desses sete passos assinalados por Spiegelberg. Farei aqui a minha interpretação dessa síntese — talvez uma síntese da síntese — com algumas observações complementares que julguei necessárias para elucidar.
2.1 Investigação de Fenômenos Particulares
Consiste em três etapas distintas:
• percepção intuitiva do fenômeno;
• exame analítico do fenômeno;
• descrição do fenômeno.
A descrição deve ser antecedida pelas duas etapas anteriores que pressupõem, primeiro, um aprofundamento sensível onde é necessário cuidar para não cair na insensibilidade de não perceber as nuances sutis do fenômeno e, simultaneamente, evitar excessos de sensibilidade que possam trazer distorções de enfoque, enfatizando sobremaneira aspectos secundários do fenômeno.
A descrição pressupõe uma pré-categorização do fenômeno. Sendo também sugerida a descrição por negação, para...
... indicar a unicidade e a irredutibilidade de um fenômeno. (Moreira, 2004:98).
Spiegelberg (1971) considera, também, a impossibilidade de exaustão de todas as propriedades de um fenômeno. Com isso, considera-se que toda descrição de um fenômeno é sempre parcial e seletiva no sentido pessoal do sujeito — o pesquisador — que observa, intui, analisa e descreve.
2.2 Investigações de Essências Gerais
A fenomenologia das essências gerais — também conhecida como intuição eidética — trata da intuição de essências a partir da intuição de particulares, através da percepção, imaginação ou ambas as fontes combinadas.
Paira sobre a intuição eidética um questionamento de misticismo. O termo "eidético" foi introduzido por Husserl a partir de sua obra Investigações Lógicas (Husserl, 1900-1901), ...
... para indicar tudo que se refere às essências, que são objetos da investigação fenomenológica. (Abbagnano, 2000:308).
Com esse termo, intuição eidética, Husserl se refere à busca intuitiva de essências que são objeto da investigação fenomenológica.
Sobre esse questionamento de misticismo, como se trata de metafísica, não se pode dizer que apresenta sentido. O termo "misticismo" tem sido muito utilizado de formas eivadas de preconceitos oriundos do positivismo. Esse preconceito é a causa da inexplicabilidade de inúmeros fenômenos. Não por essa razão seria abandonada, deixada de lado, a intuição eidética, quando dentro do contexto da pesquisa. Mas observa-se que muito ainda tem que ser aprofundado em termos de metodologia científica.
Em busca da intuição das essências, o ponto de partida — segundo este enfoque metodológico — está na intuição de particulares, que serão tratados como casos específicos da essência geral, esta um pressuposto universal. Quando estamos no percurso de prosseguir do particular para o universal, estamos realizando uma operação denominada por Husserl de ideação, segundo nos informa Abbagnano (2000:522).
2.3 Apreensão de Relações Fundamentais entre as Essências
Significa o estabelecimento de conexões entre as essências. Moreira (2002:99) sublinha dois tipos de relações dessa natureza:
•
Relações dentro de uma simples essência.
•
Relações entre diversas essências.
Nas relações dentro de uma simples essência o sentido é identificar componentes fundamentais e assessórios de uma essência. Os componentes fundamentais são aqueles necessários para que a essência continue a ser o que é. Os componentes assessórios apenas são compatíveis a essência.
2.4 Observação dos Modos de Dar-se
A fenomenologia deve estudar os fenômenos tanto no sentido do que aparece, como na forma em que aparecem. (Moreira, 2002:99).
Spiegelberg (1971:685) identifica três modos de aparecer (fazer-se mostrar, tornar-se perceptível) um fenômeno:
a) Aparecer do lado ou aspecto do objeto dado, a partir do que conhecemos do objeto como um todo.
b) A aparição do objeto pode ser vista numa perspectiva deformada, sob o ponto de vista do sujeito.
c) O mesmo objeto ainda que observado sob a mesma perspectiva, pode dar-se com diferentes graus de clareza e distingüibilidade.[4]
2.5 Observação da Constituição dos Fenômenos na Consciência
Segundo Spiegelberg (1971), Husserl adota o uso reflexivo do verbo segundo o qual os objetos se constituem — ou se formam — em nossa consciência.
A constituição do fenômeno na consciência consiste em desvelar a forma sob a qual o fenômeno se estabelece e toma forma em nossa consciência.
Assim, pode-se determinar a estrutura de como se constitui por meio de uma análise da seqüência fundamental de formação dessa consciência.
2.6 Suspensão da Crença na Existência do Fenômeno
Trata-se do abandono da atividade natural e a tomada da atitude fenomenológica. Essa atitude é conseguida através da chamada redução fenomenológica (ver a nota descritiva ao final).
A redução fenomenológica é um processo polêmico. Spiegelberg (1971) comenta que Husserl jamais...
... conseguiu um completo sucesso em formular o sentido e função da redução fenomenológica de forma clara e definitiva que satisfizesse ao próprio Husserl. (Moreira, 2002:100).
Spiegelberg (2001) afirma que, dado o caráter polêmico da redução fenomenológica, ela tem sido considerada como uma etapa opcional dentro da seqüência do método, pois a sua usabilidade é contestada por muitos.
2.7 Interpretação do sentido dos fenômenos.
Spiegelberg (2001) afirma que, se incluído, este passo deverá ser obrigatoriamente o último, pois...
... a interpretação encerra qualquer análise. (Moreira, 2002:101).
Comenta que inclui este passo na síntese do método com uma certa hesitação, porque Husserl, embora não tenha rejeitado a fenomenologia hermenêutica, também não a encorajou.
Aqui abandono os estudos da fenomenologia de Husserl com a seguinte questão:
— Até que ponto a fenomenologia de Heidegger é uma continuação da fenomenologia de Husserl?
Incluí esta síntese de Spiegelberg, com a única finalidade de contextualizar a fenomenologia hermenêutica, metodologia de investigação que venho adotando.
Servirá como uma introdução ao método inserido por Heidegger e para observar que Heidegger irá formular uma nova e autônoma fenomenologia e não uma continuação do pensamento de Husserl.
Outra pergunta que se coloca é:
— Até que ponto essa seqüência proposta por Spiegelberg é válida para estudos de fenomenologia hermenêutica?
Isso será visto estudando o método proposto por Martin Heidegger.
3. A Fenomenologia Hermenêutica de Heidegger.
A obra de Heidegger Ser e Tempo é, antes de tudo, uma aplicação da fenomenologia como método. Ao mesmo tempo que se introduz o método, aplica-se o método na recolocação da questão do ser.
Ser e Tempo é uma obra dividida em duas partes antecedidas por uma introdução. É uma obra incompleta. Ao publicá-la, em 1926-7, Heidegger prometia a sua complementação, uma "outra metade", que jamais foi escrita no decorrer de sua vida. Mas não se pode dizer que ele não a tenha continuado. Quem tem às mãos as obras posteriores de Heidegger como, por exemplo, Os Conceitos Fundamentais da Metafísica, publicada originalmente em 1975 — um ano antes de sua morte e quase 50 anos após a publicação de Ser e Tempo — observará que a questão do ser, sua angústia, sua finitude e sua solidão é retomada e continuada. A questão não haveria mesmo de ter uma conclusão porque o ser — e conseqüentemente as respostas às questões sobre esse ser — será sempre inconcluso em conceito de terminalidade.
No primeiro capítulo da Introdução de Ser e Tempo (Heidegger, 2002:27-41), intitulado Necessidade, estrutura e primado da questão do ser, Heidegger irá desenvolver o porquê da recolocação da questão do ser. No segundo capítulo da Introdução, nominado As duas tarefas de uma elaboração do ser — o método e o sumário da investigação (Heidegger, 2002:42-71), Heidegger introduzirá o sentido da fenomenologia hermenêutica, sua formulação e proposta de método.
Farei aqui uma releitura do §7º: O método fenomenológico de investigação — contido nesse segundo capítulo (Heidegger, 2002:56-70) — com vista a uma melhor compreensão da formulação metodológica nele descrita.
Trata-se de uma nota introdutória: o método se desenvolve e toma corpo, enquanto se desenvolve a própria investigação. É a própria investigação que a fundamenta. Especialmente na fenomenologia hermenêutica — que trata da consciência dos fenômenos[5] — o método se desenvolve em si mesmo, na vivência do ser do sujeito enquanto investiga — e se mistura e transforma com — o objeto. O sujeito investiga antes de tudo a si mesmo na relação com o objeto, o sujeito se transforma na relação com o objeto e intervêm na concepção do sentido do mesmo.
A fenomenologia hermenêutica — portanto — realça a confusão entre sujeito e objeto, senão — até mesmo — a abolição dessas fronteiras, enquanto observa os fenômenos e toma consciência deles. Essa é a essência da fenomenologia de Heidegger e, como o ser está sempre em transcendência, a consciência — de si e do objeto — transcende com o próprio ser. Essa formulação transborda consistência na investigação e seduz o investigador a um horizonte sem finitude do saber humano.
Trago aqui um conceito preliminar, preliminar em Heidegger, preliminar aqui: sempre preliminar e sempre inconcluso. A fenomenologia habita em mim e o meu ser é em processo de permanente transcendência, até mesmo enquanto transmito para o papel, ao descrever a minha investigação, ela transcende e eu transcendo nela, em meu ser e na consciência desse ser em mim. A investigação munda (es weltet)![6]
3.1 O Método Fenomenológico de Investigação
A expressão 'fenomenologia' diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade[7] real dos objetos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. (Heidegger, 2002:57).
A fenomenologia não enfoca especificamente a substância real dos objetos que investiga e, sim, o seu modo de ser. A fenomenologia é, portanto, um método de investigação do modo que as coisas são, as coisas em si mesmas! O verbo ser aqui assume um caráter intransitivo. Pode-se dizer que é uma evidência que sentimos necessidade de observar mais de perto. Incorporá-la em nosso ser!
O termo "fenomenologia" tem dois componentes: fenômeno e logos.
Heidegger, traz uma concepção preliminar e conceitual da fenomenologia de duas maneiras. Na primeira delas ele caracterizará os dois componentes da palavra "fenomenologia" — fenômeno e logos — e, na segunda maneira, procura compor o sentido da expressão, do sentido resultante da junção desses dois componentes.
3.2 O Conceito de Fenômeno
A palavra grega da qual se origina o termo "fenômeno" significa: o que se mostra, o que se revela. Significa tornar-se visível por si só.
Definida a palavra "ente" como sendo tudo aquilo que, pode-se dizer que existem vários modos de o ente mostrar-se por si mesmo.
Há até a possibilidade de o ente como aquilo que, em si mesmo, não é. (Heidegger, 2002:58)
Dentro da palavra grega também está incluso o sentido do que: "se faz ver assim como". O sentido da "aparência", do que "parece e aparece". Nesses sentidos é possível que o ente se apresente de uma forma que na "realidade" ele "não é" assim como se dá e apresenta.
Há, pois, dois significados distintos para "fenômeno":
1. fenômeno como coisa que se mostra;
2. fenômeno como aparecer, parecer, aparência.
Somente na medida em que algo pretende mostrar-se em seu sentido, isto é, algo pretende ser fenômeno, é que pode mostrar-se como algo que ele mesmo não é. Pode apenas se fazer ver assim como... (Heidegger, 2002:58).
Assim sendo, no significado de número 2 está incluso o significado de número 1: o significado originário é "aquilo que se revela", é o significado que sustenta, como verdade, a outra significação.
Heidegger adota e reserva, para a palavra "fenômeno", o significado originário e positivo (o de n° 1), distinguindo esse significado de "aparecer", "parecer" e "aparência" (o de n° 2).
Heidegger distingue, também, "fenômeno" de "manifestação" e ainda mais de "mera manifestação". Cita o exemplo da manifestação de uma doença, ou seja: seus "sintomas".
Manifestação enquanto manifestação de alguma coisa não diz mostrar-se a si mesmo, mas um anunciar de algo que não se mostra. Manifestar é um não mostrar-se. (Heidegger, 2002:59).
Mas a manifestação também não está contida no significado nº 2 de fenômeno. O que se manifesta não pode aparecer e parecer na "manifestação". O fenômeno, aqui na "manifestação", não se mostra em si, mas se pressupõe...
... os fenômenos nunca são manifestações. Toda manifestação é que depende de um fenômeno. (Heidegger, 2002:59)
A palavra "manifestação" pode ter, também, outros significados:
1. manifestar-se no sentido de anunciar-se e como um não mostrar-se em si mesmo;
2. manifestar-se no sentido daquilo que se anuncia em si mesmo, aquilo que, em seu mostrar-se, aponta e indica algo que não se mostra;
3. manifestar-se no sentido autêntico do fenômeno, um mostrar-se a si mesmo;
4. manifestar-se irradiando, em seu mostrar-se, algo que encobre a si mesmo.
Assim sendo, o fenômeno em seu sentido originário e autêntico — o que se mostra em si mesmo — é, ao mesmo tempo, uma "manifestação", mas um tipo específico de manifestação. O fenômeno é constitutivo da manifestação apenas no sentido em que se trata de um anúncio de algo que se mostra.
O fenômeno, o mostrar-se a si mesmo significa um modo privilegiado de encontro. Manifestação, ao contrário, indica no próprio ente uma remissão referencial (...). Esta multiplicidade confusa de "fenômenos" (...) só pode deixar de nos confundir quando se tiver compreendido, desde o princípio, o conceito de fenômeno: o que se mostra a si mesmo. (Heidegger, 2002:60)
Fica, portanto, estabelecido o conceito originário de fenômeno como sendo o sentido adequado para a compreensão da fenomenologia.
O fenômeno no sentido que é utilizado no empirismo é o chamado por Heidegger de conceito vulgar de fenômeno. Um fenômeno físico, por exemplo, o conceito vulgar, não é o conceito fenomenológico de fenômeno.
Conclui Heidegger, sobre o conceito de fenômeno:
Perceber o sentido do conceito formal de fenômeno e de seu uso devido na acepção vulgar é uma pressuposição indispensável para se compreender o conceito fenomenológico de fenômeno, prescindindo de como se deva determinar mais precisamente o que se mostra. (Heidegger, 2002:61-62)
3.3 O Conceito de Logos
O conceito de "logos" nos filósofos gregos é polissêmico, ou seja, assume vários significados que se dispersam sem uma adequada orientação. O significado básico de "logos" é discurso. É uma tradução literal e só terá significado, valor, quando determinado — o que é um discurso?
Os significados posteriores da palavra "logos", especificamente os valores atribuídos pela filosofia e suas...
... interpretações diversas e arbitrárias encobrem o sentido próprio da palavra discurso, que é bastante clara. (Heidegger, 2002 : 62).
Traduz-se "logos" por: razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proporção... mas, por que tanta mudança de significados, justamente no uso de uma linguagem das ciências? Entende-se, também, "logos", como proposição e, assim mesmo, excluir o sentido básico de "logos". Bem como no sentido de juízo: uma tradução que pode parecer correta, mas que se afasta do sentido primordial do "logos".
Como discurso, o "logos" significa: revelar aquilo que trata o discurso. Segundo Heidegger, Aristóteles:
... explicitou essa função do discurso. O logos deixa e faz ver aquilo que se discorre e o faz para quem o discorre (médium) e para todos os que discursam uns para os outros. (Heidegger, 2002:62-63)
O discurso deve, antes de tudo, revelar e tornar acessível aos outros o que se tem a dizer.
Como "logos" é um "deixar e fazer ver", ele pode ser verdadeiro ou falso.
Tudo depende de se libertar de um conceito construído de verdade, no sentido de 'concordância'. (Heidegger, 2002:63)
A verdade é, pois, construída em um conceito. Para ser verdadeiro, enquanto "logos", o discurso deve desvelar e mostrar o ente como ser descoberto. Um discurso falso, pelo contrário, encobre ou propõe um a coisa como ela não é.
O "logos" não é o lugar primário da verdade. Mais originária que o "logos" seria a percepção: a percepção sensível de uma coisa. A percepção verdadeira acontece quando o ente se torna acessível nessa percepção e para ela. O exemplo citado por Heidegger é a percepção das cores: a visão descobre as cores. Também, a audição desvela os sons. Pode não haver percepção, mas dado que há, ela fala por si. A percepção...
... percebe singelamente as determinações mais simples do ser e dos entes como tais. (Heidegger, 2002:64)
Somente quando a função do "logos" reside num...
... puro deixar e fazer ver, deixar e fazer perceber o ente (Heidegger, 2002:64)...
... é que "logos" pode significar razão.
A interpretação do "logos" como discurso esclarece a sua função primária.
3.4 O Conceito Essencial de Fenomenologia
O que salta aos olhos, a partir da interpretação de "fenômeno" e de "logos" é o seguinte conceito. Fenomenologia é...
... deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo. (Heidegger, 2002:65)
Diz Heidegger que a ciência dos fenômenos significa:
apreender os objetos de tal maneira que se deve tratar de tudo que está em discussão numa de-monstração e procedimentos diretos. (Heidegger, 2002:65).
Heidegger costuma chamar os objetos de "a própria coisa" e esse conceito está perfeitamente dentro da fenomenologia. A idéia é afastar o que não é demonstrativo por si só. Ou seja, o caráter da própria descrição fenomenológica só pode ser estabelecido a partir do próprio objeto, da própria coisa, que deve ser descrita cientificamente através de fenômenos que vêm ao seu encontro.
Mas, o que seria o conceito de fenômeno, agora dentro de uma visão estritamente fenomenológica? É necessário desformalizar o conceito formal de fenômeno. À luz da fenomenologia o conceito se transforma, se afasta de seu conceito vulgar.
Pergunta Heidegger:
• O que a fenomenologia faz "deixar e fazer ver"?
• O que se deve chamar de fenômeno num sentido privilegiado?
• O que, em sua essência, é necessariamente tema de uma de-monstração explícita?
O que não se mostra diretamente o que é — o que é oculto, velado — ao mesmo tempo está essencialmente ligado ao que se mostra diretamente, constituindo sentido e fundamento. No entanto, o que se oculta, o que se vela, não é o ente e sim o ser deste ente.
O ser pode encobrir-se tão profundamente que chega a ser esquecido, e a questão do ser e do seu sentido se ausentam. (Heidegger, 2002:66)
Para ser analisado segundo a fenomenologia, exige-se que o objeto se torne fenômeno: que se mostre por si só.
Não há nada "atrás" dos fenômenos da fenomenologia. Os fenômenos, obrigatoriamente, revelam-se por si só. O que pode acontecer — e acontece freqüentemente — é que aquilo que deveria tornar-se fenômeno pode permanecer oculto. A fenomenologia é importante porque, observados aprioristicamente, muitas vezes os fenômenos não se dão. Não se revelam por si só. Em oposição ao conceito de fenômeno está o conceito de velamento, de encobrimento.
Há diversos modos de velamento de fenômenos:
1. Um fenômeno pode manter-se encoberto por nunca ter sido descoberto. Aqui nada se conhece ou desconhece do fenômeno.
2. Um fenômeno pode estar entulhado. Ou seja, o fenômeno foi descoberto, mas depois foi soterrado.
3. O fenômeno pode estar desfigurado em sua aparência. Muitas vezes o fenômeno é só parcialmente encoberto, ou desfigurado, requerendo uma hermenêutica de dedução contínua.
4. O fenômeno pode estar desvirtualizado. Neste caso perde a sua solidez, transforma-se em uma idéia solta no ar e transmite uma compreensão vazia.
Com relação a essa última possibilidade de petrificação, endurecimento e inapreensão daquilo que se apreendeu como fenômeno, encontra-se no próprio trabalho concreto da fenomenologia. A dificuldade da investigação fenomenológica está em torná-la crítica de si mesma, sem perder a consistência.
Há necessidade de uma segurança metódica particular desde o ponto de partida da análise nas pesquisas de acesso ao fenômeno, e na ultrapassagem dos velamentos que o encobrem. A apreensão e interpretação de forma originária e intuitiva, sempre reflexiva, passa ao largo da ingenuidade de uma abordagem casual, imediata ou impensada.
Antes de entrar na fenomenologia ontológica (fenomenologia do ser), cabe ressaltar que Heidegger faz uma distinção entre o significado dos termos "fenomenal" e "fenomenológico".
Fenomenal é aquilo que se dá e se pode explicitar segundo o modo de encontro com os fenômenos.
Fenomenológico é o que pertence à demonstração e explicação, que forma o sentido conceitual exigido na investigação.
3.5 Fenomenologia do Ser (Fenomenologia Ontológica)
No sentido fenomenológico, fenômeno é somente o que constitui o ser, e ser é sempre ser de um ente. (Heidegger, 2002:68).
Com esse dizer, Heidegger traz a fenomenologia para a questão do ser, objeto permanente de seu estudo, especialmente em Ser e Tempo. E com essa assertiva ele nos convida a adentrar em seu pensamento que fundamenta a própria fenomenologia ontológica.
É por isso que, ao se visar uma liberação do ser, deve-se, preliminarmente, aduzir o próprio ente de modo devido. Este ente também se deve mostrar no modo de acesso que genuinamente lhe pertence. E, deste modo, o conceito vulgar de fenômeno se torna fenomenologicamente relevante. (Heidegger, 2002:68)
Segundo Ernildo Stein (Stein, 2001:187), Heidegger escolheu a fenomenologia para a elaboração de sua ontologia e que o método fenomenológico, assim seguido, se concretiza na hermenêutica. Assim, nesse parágrafo de Ser e Tempo (o §7) que estamos abordando, Heidegger irá explicar o porquê dessa fenomenologia. A analítica do dasein (o ser-aí) realiza-se através da descrição fenomenológica. Ou seja, além de propor um método, Heidegger o aplica nos desvelamentos da questão do ser e sua compreensão. A hermenêutica de Heidegger (ainda nos diz Stein) tem o sentido de uma ontologia da compreensão. A hermenêutica não é, em Ser e Tempo, uma teoria da interpretação, muito menos a própria interpretação. Heidegger busca a essência da interpretação a partir da hermenêutica, que assume o papel de elemento ontológico da compreensão.
Para Heidegger, a fenomenologia é ontologia e se desenvolve a partir de uma ontologia fundamental: que enfoca o dasein, que muitas vezes pode ser definido como o espírito que habita o ente q que assim é. Fundamenta-se, assim, a própria razão da presença[8]. A compreensão é o próprio modo de ser do dasein, quando existência. E existência é o percurso do ser no tempo.
Assim, pode-se observar que a própria obra Ser e Tempo de Heidegger está impregnada e constituída através de uma fenomenologia. Ao desenvolver o seu pensamento, Heidegger nos de-monstra o método.
4. Conclusão
A finalidade deste estudo não foi de criar uma "fórmula" sintética para a aplicação do método fenomenológico. Antes de tudo, trata-se de um exercício de compreensão — diria Heidegger: uma hermenêutica — da própria fenomenologia.
Nesse exercício de compreensão, busca-se o desvelamento de sentidos ocultos nos textos disponíveis e que abrangem o método fenomenológico, sem propriamente defini-lo, como seria vulgar procurar. Seria impossível essa definição vulgar.
Obedecendo a Heidegger, essa compreensão hermenêutica parte do dasein e o dasein é o próprio sujeito que busca a compreensão realizando, assim, uma fenomenologia. Como cada investigador é dono de sua própria historicidade — sua própria existência de ser ao longo do tempo — pode-se observar que o sujeito — enquanto investigador — desenha e progride na sua própria e peculiar fenomenologia. Por essa razão é que Heidegger indica o dasein como ponto de partida de toda fenomenologia. Diz que essa é a ontologia fundamental e a única forma de se colocar diante do problema cardeal da questão do ser. E a fenomenologia é, antes de tudo, um estudo do ser.
Heidegger dirá:
Da própria investigação resulta que o sentido metódico da descrição fenomenológica é interpretação. (Heidegger, 2002:68)
Assim sendo, faz sentido a hermenêutica e o método se desenvolve em si. Como a fenomenologia se desenvolve em uma busca da compreensão, Heidegger irá dizer que a própria filosofia é uma fenomenologia ontológica e universal que parte da hermenêutica do dasein — o ser que habita o sujeito.
Enfim, não há, numa analítica fenomenológica, a possibilidade de não o próprio sujeito como ponto de partida. E, assim sendo, o próprio sujeito — enquanto dasein — fundamenta a hermenêutica da compreensão que guia o método fenomenológico.
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Bibliografia
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ª Edição. Martins Fontes, São Paulo, 2000.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método — Traços Fundamentais de uma Hermenêutica Filosófica. 5ª Edição. Dois Volumes. Editora Vozes. Petrópolis, Rio de Janeiro, 2003.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 12ª Edição. Dois Volumes. Editora Vozes. Petrópolis, 2002.
HEIDEGGER, Martin. Os Conceitos Fundamentais da Metafísica — Mundo Finitude Solidão. Editora Forense Universitária. Rio de Janeiro, 2003.
HUSSERL, Edmund. A Idéia da Fenomenologia. 1ª Edição. Edições 70. Lisboa, Portugal, 2000.
HUSSERL, Edmund. Investigações Lógicas: Sexta Investigação. Coleção Os Pensadores. Abril Cultural. São Paulo, 1980.
HUSSERL, Edmund. Meditações Cartesianas — Introdução à Fenomenologia. Madras Editora. São Paulo, 2001.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Editora Martins Fontes. São Paulo, 1999.
MOREIRA, Daniel Augusto. O Método Fenomenológico na Pesquisa. Editora Thompson-Pioneira. São Paulo, 2002.
SAFRANSKI, Rudiger. Heidegger: Um Mestre na Alemanha entre o Bem e o Mal. Geração Editorial. São Paulo, 2000.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada — Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Editora Vozes. 13ª Edição. Petrópolis, 2005.
SPIELGELBERG, Herbert. The Phenomenological Movement. Cambridge University Press. New York , 2000.
STEIN, Ernildo. Compreensão e Finitude — Estrutura e Movimento da Interrogação Heideggeriana. Editora Unijuí. Ijuí, Rio Grande do Sul, 2001.
Notas
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[1] Estou usando, aqui, a seguinte notação bibliográfica: (Autor, ano da publicação da fonte:página de referência). Darei sempre preferência, na citação, à obra que tenho disponível em versão para o português.
[2] A redução fenomenológica é uma maneira determinada de executar uma percepção ou simplesmente um procedimento consciente e, com isso, dirigir a atenção não para o percebido, mas para o processo da percepção. Por razões metódicas saímos de uma percepção, mas não inteiramente, só na medida em que conseguimos nós mesmos divisar essa execução.
Vejo uma árvore. Quando percebo minha percepção da árvore, noto que confiro à árvore percebida o índice real. Mas se eu apenas imaginar uma determinada árvore ou me lembrar de uma - o que vejo então? Vejo recordações, vejo representações? Não, eu vejo árvores, mas aquelas que estão providas do índice representação ou recordação. Tantos modos de ser quantas forem as árvores. Árvores vistas aqui agora, árvores recordadas, árvores representadas. A mesma árvore que uma vez contemplei alegre porque me dava sombra, da outra vez, se examinada para ver se sua madeira vale a pena economicamente, não será a mesma nessas duas percepções. O seu ser se modificou, e quando o examino de uma maneira chamada objetiva, puramente pragmática, essa também é apenas uma das muitas maneiras pelas quais se permite que a árvore seja. A redução fenomenológica aborda, pois a questão do que afinal é na realidade a árvore, e trata das diversas maneiras de como, e como, o que ela se oferece à consciência, ou melhor, dito, como a consciência a aborda.
Com o exercício da redução fenomenológica colocamos entre parênteses a chamada percepção "natural", e botamos fora de parênteses a realidade externa, perde-se um mundo inteiro, mas apenas para, como diz Husserl em suas Meditações Cartesianas, as "reconquistar em uma consciência de si universal".
A redução fenomenológica é o aspecto decisivo da fenomenologia. Trata-se de uma determinada atenção para com os processos da consciência, também chamados "visão fenomenológica". Uma atenção pela qual se descobre em que medida a vida consciente entra "em jogo" em relação à chamada realidade exterior. (Safranski, 2002:107-8)
[3] Muito embora se questione os limites entre filosofia e ciência.
[4] Ver a conceituação de fenômeno elaborada por Heidegger em Ser e Tempo.
[5] Não confundir o conceito de hermenêutica de Heidegger com o conceito tradicional de hermenêutica. Ao longo do texto é explicado o porquê.
[6] Ver este texto de Heidegger, citado por Safranski (Safranski, 2000:128-129):
Os senhores vêm como de hábito a esse auditório na hora habitual e se dirigem até seus lugares habituais. Os senhores retêm essa vivência de ver os seus lugares ou também podem perceber a minha própria postura: entrando no auditório eu vejo a cátedra. O que é que eu vejo? Superfícies castanhas que se cortam em ângulo reto?
Não, eu vejo outra coisa: uma caixa, na verdade uma maior com outra menor por cima. De modo algum, eu vejo a cátedra sobre a qual devo falar. Os senhores vêem a cátedra da qual se falará aos senhores, na qual eu mesma já falei. Na pura vivência também não há - como se diz - nenhum contexto fundador como se eu visse, primeiro, superfícies castanhas que se cortam, que depois se me apresentam como caixa, depois como púlpito, depois como púlpito para discursos acadêmicos, como cátedra, de modo que eu cole o catedrático na caixa como um rótulo.
Tudo isso é interpretação ruim e falsa, desvio do olhar puro para a vivência. Vejo a cátedra de um golpe; não a vejo apenas isolada, vejo o púlpito como sendo alto demais para mim. Vejo um livro sobre ele, diretamente como algo que me estorva... vejo a cátedra em determinada localização e iluminação, com um fundo...
Na vivência de ver a cátedra algo do mundo em torno se apresenta a mim. Esse mundo-em-torno (Umweltliche)... não são coisas com um caráter significativo determinado, objetos, ainda por cima concebidos como isso e significando isso, mas o significativo é primário, e se me apresenta diretamente, sem nenhum desvio de pensamento sobre o apreender-a-coisa. Vivendo em um mundo em torno, por toda parte e sempre ele me significa, tudo tem caráter de mundo (welthaft), munda (es weltet).
[7] Qüididade: entre os escolásticos, essência ou natureza real de algo.
[8] Não é por futilidade que alguns interpretadores de Heidegger traduzem dasein por pre-sença, como na tradução da Editora Vozes na edição que citei aqui.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Cronos e Kairós
É o que o mundo quer: que sejamos felizes no momento adequado e tristes nos momentos adequados. E esse adequado é adequado para o mundo e não para nós. Caindo nessa esparrela deixamos de ser sujeito e viramos mero objeto.
Será que aquilo que o mundo nos apresenta é realmente uma perfeita e harmônica razão para nos despreocuparmos da dor que por ventura sentimos? O tempo cronológico, as datas do calendário, mudam realmente alguma coisa em nós?
Será que o abandonar o velho e simplesmente caminharmos, ávidos, leves, livres e soltos em direção ao novo não é a mesma ideologia do descartável vista por uma fantasia de aparente beleza?
domingo, 9 de janeiro de 2011
ser no mundo
A questão a ser colocada aqui é a questão da formação da pessoa, do ser humano, do ser-presente — do ser que sou e agora estou, aqui e em total atenção, dono de mim mesmo e da minha vontade, em estado de concentração, escrevendo estas palavras para serem incorporadas — daqui a pouco — como parte da ciência. Essa questão é uma questão sobre o crescimento de si mesmo, da ave que sai do ovo, e que desenvolve o dom de voar e de ganhar o mundo. Algo que acontece todos os dias no reino animal e no mundo, num processo de movimento permanente. Não questiono o porquê desse movimento. Eu simplesmente o observo e o reverencio.
Como as aves, as crianças nascem e crescem. Aprendem a andar e a comunicar-se. Alguns descobrem dons em si mesmos para arte. Outros vão adiante sem reparar nisso. Alguns são apressados... nem repararam em si mesmos. O mundo os envolve e eles entram no processo de viver a cotidianidade e a deixar viver em si essa continuidade mundana. Há beleza também aí. Há beleza em ser do mundo e deixar que o mundo viva em si sem nada querer a mais, senão simplesmente viver.
(...)
Trecho de "O Sentido de(a) Presença na Educação, de Claudio Fagundes
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
resposta ao tempo
Mas será que alguém pode dizer que passou pela vida e realmente amou. Não se sabe. A vida já me pregou tantas surpresas e eis que de repente surge uma nova chama e, pronto... tudo de antes se torna secundário. O greande "amor" de antes se torna pequeno.
Para mim o amor verdadeiro se chama amizade. E ela pode ter ou não afinidades de natureza sexual.
Esse "amor" que chamamos de amor, é paixão, tesão, posse, idolatria, ou seja, produto exacerbado do desejo. Construções líricas do pensamento sobre a vontade de ter, ou manter, a pessoa.
Mas realmente tudo faz parte da vida, tudo é apendizagem sem fim para toda uma eternidade... e ainda assim o eterno será insuficiente.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
[Quando eu ensaiava com minha banda...]
Quando eu ensaiava com minha banda de rock a existência de um grupo em que cada um fazia a sua parte exigia presença. Não havia a possibilidade de estar apenas de corpo presente. Era necessária uma qualidade de presença que fosse atenta e participativa. A atividade em grupo exigia comunicação fluente e para isso a aprendizagem da teoria musical fornecia uma linguagem adequada para a interação. A execução das músicas com sincronicidade de ritmo e variações harmônicas exigia uma presença atenta e consciente de cada um dos participantes. A música não perdoava ausências momentâneas e as punia com o comprometimento da execução. Pensei que um grupo de aprendizagem, um grupo de pesquisa, um grupo de trabalho, deveria ser parecido com um grupo de música. E que a música é essencialmente permeada pela interatividade e com isso se produzia uma espécie de "espírito de grupo" que produz uma criação coletiva. Produz algo novo e gratificante para o grupo.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
canção de amigo
há no mundo tanta necessidade de definir: problemas, soluções, futuros. não por mim. eu tenho gosto por inconclusões. tenho ânsias de eterno. desejo de ir além. pois concluir significa chegar ao fim. tenho ânsias de eterno. ao descobrir que gosto de ti, que gosto de te ter por perto. para te falar, ouvir. para te agradar, fazer-te alegre, mesmo que seja por hora, oferecer-te um pequeno bem-estar num fim de dia, ou de noite. não importa. que seja sem querer que o tempo acabe e que o momento se perpetue.
quero-te por perto para olhar nos teus olhos, não preciso decidir o que tu és para mim, nem o que serás. importa o que és, por si só, agora, neste instante qualquer. não, não quero te ter só para mim, como falam tantas canções de amor. eu quero apenas poder te achar, para ouvir teu pensamento e quem sabe sentir, se for a hora, o beijo do teu olhar, sobre o meu. não, não quero que sejas minha amada, namorada, nem nada. tenho ânsias de eterno, inconclusivo, sem fim.
sábado, 18 de setembro de 2010
o mundo e os olhares
e é extremamente importante para o mundo
que cada um veja o mundo de um olhar diferente
(para Vilma Machado)
terça-feira, 6 de julho de 2010
há canções
Há canções que pegam de jeito. Que expõem sensibilidades ocultas e, inexplicáveis, tangem uma nota nunca antes percebida. Há canções que vão lá em um lugar que não se sabe onde, reviram tudo, desatam e reatam nós, revolvem emoções incompreendidas, penetram em mistérios. Sim, há canções que revivem dores, ou amores, anestesiados pelo tempo. E fazem chorar sem saber porquê. Há canções que desvelam, que invadem relicários herméticos do ser, assim, sem aviso prévio.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
vilegiatura
Quando a noite se aquieta e todos na casa, na rua, já dormem o sétimo sono. Eu permaneço em vigília. Sou vagabundo do nada fazer a não ser cuidar, para que as dores também adormeçam e os fantasmas não vaguem a esmo. Dou a eles o seu motivo. Deixo-me assombrar pelos meus mortos, para que os vivos durmam em paz e tenham um amanhã correto.
Aqui permaneço. Acolho os uivos que os lobos dedicam à lua. Intercepto os refrões que recitam a cantilena de sofrimentos que não têm perdão. A récita dos tormentos sempre repetidos, numa ladainha, como um rosário de rezas que precisam se mostrar evidentes, que precisam ecoar no silêncio para revelar a inclemência dos tempos que se demoram e não passam, não passam.
Já era hora de estirar no leito, mas lá os murmúrios do silêncio soam mais alto. E um coro em forma de zumbido que vai e volta. E não deixa acostumar-se. E não deixa sublimar-se. Então eu sento e espero pela hora do lobo. Espero atento a cada movimento do vento. Envolvo-me nas expectativas do ranger das tábuas do assoalho e de passos que nunca chegam.
Aí duendes, os pequenos demônios da madrugada, já fazem parte de mim. Incorporados, dilaceram fibras e cartilagens, cutucam intermitentes os anéis fibrosos entre minhas vértebras. Ferroam com agulhas aguçadas o encordoamento dos nervos. E permanecem nesse ritual até que meus sentidos se esmoreçam e, finalmente, se percam em si mesmos.
domingo, 4 de julho de 2010
o homem que sabe o futuro
Um homem disse que pode ver o futuro. Disse que há pessoas invisíveis, mundos invisíveis, pessoas vivendo em um universo paralelo. Traça detalhes de hierarquias e estruturas de um mundo que é invisível e que ninguém vê. Mas ele diz que existe e que é preciso acreditar. Porque esse mundo é bom e que se deve querer esse mundo bom, porque é bom demais. Há tantas coisas nesse mundo bom! Coisas que não existem aqui. Coisas que não temos e que precisamos ter. Ele vê um futuro de pessoas felizes que lá estão.
posta-restante
Não é só a tristeza de envelhecer. Não é só viço da pele que se vai, a turbidez melancólica do olhar. É a certeza de que todas as realizações se quedaram incompletas e levantar-se agora, para fazer o café, tornou-se um esforço difícil. Quanto mais para começar algo, mais difícil, ou menos pequeno. Há algum tempo os amores se tornaram poemas, ou pequenas notas depositadas na posta-restante de um futuro que se duvida. Faz tempo que a vida se torna ficção e tem reservado aos sonhos as suas melhores delícias. E assim se vai e transcorre o cotidiano. E assim se escoa o tempo que resta.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
impensar (4)
Mas na verdade ninguém sabe como se desencadeia o processo de pensar no ser humano. O pensamento não é dissociável e analisável em laboratório: é abstrato. Então tudo o que se diz sobre o fenômeno e processo de pensar é especulação.
E é uma das principais questões da metafísica... e está longe do plano físico. Portanto, ignoramos a essência do pensamento. E então: "penso, logo existo" é algo que não trata a ciência objetiva. Faz parte do imenso vácuo metafísico que envolve, antes de tudo, a questão do ser.
impensar (3)
Afinal:
o que é pensamento?
o que é percepção?
o que é atenção?
o que é consciência?
senão uma metafísica.
impensar (2)
eu to mesmo cansado de pensar...
eu penso mais do que posso tolerar.
estou exausto aqui às 2 da manhã pensando.
e para que pensar?
são os meus pensamentos que não prestam?
até que eles são bonzinhos.
bonzinhos e inúteis.
eu não acredito na racionalidade
de que tanto se orgulham os homens
talvez eu queira ter novas manhãs
com um sol nascendo atrás dos morros
e ficar de pé olhando na soleira da porta
sem contar os tempos
eu não sei o que quero
eu não sei se é a vida
isso de pensar destinos
ao invés de simplesmente ficar
quarta-feira, 5 de maio de 2010
impensar
quando a gente tem uma experiência qualquer,
e em função dela,
se liga a máquina das analogias,
saímos do aqui e agora.
entramos numa espiral que nos distancia da presença.
já não é mais o fenômeno que existe.
o que existe um fenômeno transformado,
pelos nossos conceitos e pré-conceitos,
e que não é mais a consciência do que
meramente é.
é agora uma ilusão do que é
criada não pela nossa consciência
e sim um referencial com outros experimentos.
aí é que eu gosto do buda
quando ele meramente contempla o rio que passa,
quando ele meramente
chama de não-pensar
a experiência de meditar.
sexta-feira, 12 de março de 2010
interatividade e pensamento
Quando eu compartilho com uma comunidade as minhas impressões daquilo que li, estou dando a oportunidade para que outros façam outra leitura... para que outros leiam a minha leitura.
Quem ler o texto e a minha leitura sobre o texto, ganhará conhecimento em dobro, pois aprenderá com sua própria leitura e com a minha leitura.
Quando eu ler a sua leitura e comentar a sua leitura eu estou dando oportunidade de você ler a sua leitura de um modo diferente do que leu originalmente. Estou dando a você a minha leitura da sua leitura.
Quando muitas pessoas lêem um texto e expressam a sua leitura em palavras, dão oportunidade para que se reproduza esse conhecimento numa exponencial infinita: pela doação de cada um, pela fenomenologia de cada um.
Pela troca de visões de mundo que enriquecem o saber individual e manifestam a existência de um saber coletivo, através de uma inteligência coletiva.
As inteligências, quando se articulam e interagem, criam sinergia e exponencializam a nossa inteligência individual. Eu passo a incorporar em mim a inteligência dos demais que interagem comigo.
Um pensamento individual é um só pensamento. Um pensamento compartilhado... é um pensamento sinergético. E o pensamento sinergético faz a nossa consciência abrir-se em olhares infinitos, dimensões e compreensões infinitas. É como se tivéssemos mil olhos, mil sensores e mil estados de consciência.
Por isso é que eu peço a todos: interajam! Manifestem o seu ser através da palavra, pois a palavra tem esse dom de atalhar os meandros do rio do conhecimento que - por sua vez - conduz ao oceano da consciência universal.
Dá para compreender o que isso significa? Diga para mim! Dá-me a oportunidade de ver a mim com os teus olhos e aprender, contigo, sobre mim.
Fonte: SILVA, Claudio Alex Fagundes da . Indagando o Sentido de Presença e o Sentido da Presença na Educação. São Paulo: PUC-SP, 2006. v. 1. 214 p.