domingo, 9 de janeiro de 2011
ser no mundo
A questão a ser colocada aqui é a questão da formação da pessoa, do ser humano, do ser-presente — do ser que sou e agora estou, aqui e em total atenção, dono de mim mesmo e da minha vontade, em estado de concentração, escrevendo estas palavras para serem incorporadas — daqui a pouco — como parte da ciência. Essa questão é uma questão sobre o crescimento de si mesmo, da ave que sai do ovo, e que desenvolve o dom de voar e de ganhar o mundo. Algo que acontece todos os dias no reino animal e no mundo, num processo de movimento permanente. Não questiono o porquê desse movimento. Eu simplesmente o observo e o reverencio.
Como as aves, as crianças nascem e crescem. Aprendem a andar e a comunicar-se. Alguns descobrem dons em si mesmos para arte. Outros vão adiante sem reparar nisso. Alguns são apressados... nem repararam em si mesmos. O mundo os envolve e eles entram no processo de viver a cotidianidade e a deixar viver em si essa continuidade mundana. Há beleza também aí. Há beleza em ser do mundo e deixar que o mundo viva em si sem nada querer a mais, senão simplesmente viver.
(...)
Trecho de "O Sentido de(a) Presença na Educação, de Claudio Fagundes
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
resposta ao tempo
Mas será que alguém pode dizer que passou pela vida e realmente amou. Não se sabe. A vida já me pregou tantas surpresas e eis que de repente surge uma nova chama e, pronto... tudo de antes se torna secundário. O greande "amor" de antes se torna pequeno.
Para mim o amor verdadeiro se chama amizade. E ela pode ter ou não afinidades de natureza sexual.
Esse "amor" que chamamos de amor, é paixão, tesão, posse, idolatria, ou seja, produto exacerbado do desejo. Construções líricas do pensamento sobre a vontade de ter, ou manter, a pessoa.
Mas realmente tudo faz parte da vida, tudo é apendizagem sem fim para toda uma eternidade... e ainda assim o eterno será insuficiente.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
[Quando eu ensaiava com minha banda...]
Quando eu ensaiava com minha banda de rock a existência de um grupo em que cada um fazia a sua parte exigia presença. Não havia a possibilidade de estar apenas de corpo presente. Era necessária uma qualidade de presença que fosse atenta e participativa. A atividade em grupo exigia comunicação fluente e para isso a aprendizagem da teoria musical fornecia uma linguagem adequada para a interação. A execução das músicas com sincronicidade de ritmo e variações harmônicas exigia uma presença atenta e consciente de cada um dos participantes. A música não perdoava ausências momentâneas e as punia com o comprometimento da execução. Pensei que um grupo de aprendizagem, um grupo de pesquisa, um grupo de trabalho, deveria ser parecido com um grupo de música. E que a música é essencialmente permeada pela interatividade e com isso se produzia uma espécie de "espírito de grupo" que produz uma criação coletiva. Produz algo novo e gratificante para o grupo.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Sim, meu bom Álvaro, é cansaço!
É cansaço de cometer o suicídio
diário de ver almas que já
crescem pequenas e perdidas
pelo temor de sair de dentro
de si mesmas.
É cansaço. É cansaço de perceber
com essa maldita (e dolorosa) consciência
como as pessoas negam a si mesmas
e se auto-destroem, todos os dias,
de diferentes formas e sutilezas.
É cansaço. É cansaço de prever
sempre os mesmos cataclismas
pessoais retratados e, lamento,
Álvaro, a gare a que se volta
agora é sempre a mesma.
E só se serve o amor como
dobrada fria.
É cansaço. Sim, é cansaço.
domingo, 7 de novembro de 2010
Interior (Claudio Fagundes)
Vir de uma áspera estrada.
Tropeçar numas casas rasas.
Colocar-se diante das fachadas,
deixando o coração bater as asas.
As asas do vento me trouxeram
como a poeira voa no tempo.
Coisas que os tempos souberam
e não sabe o peregrino atento.
Caminhei por entre olhos.
Ouvi murmúrios entredentes.
Palavras que a mente esquece.
mas que o coração pressente.
De longe, indo embora,
ainda olhei uma hora.
Sempre um espectador
de uma aldeia do interior.