domingo, 7 de novembro de 2010
imagem
Na cadência dos passos cotidianos,
compassos que representam anos,
um ser real desprende-se de mim
e me assiste ao largo. Sempre assim.
Na massa humana que se embaralha,
sou eu que vou descobrindo atalho
E no momento em que a tensão se espalha
Sinto o olhar dele fixado em mim.
Ao sair da multidão, adentro
por meus umbrais em meu aposento,
e onde o dentro é cada vez mais dentro
ele me aguarda já tomado assento.
E no mais íntimo dos espelhos caseiros
Onde me tranco para meu asseio
Olhos se fitam como companheiros
e atrás deles está meu próprio rosto.
sábado, 6 de novembro de 2010
à Praça São Salvador
As tardes são muito diferentes
nestas velhas paragens
onde vivera momentos de juventude
que se passaram, não tão rápidos,
como o vento que se espalha
e a brisa que sopra agora.
Juntar pensamentos remanescentes.
Montar um velho quebra-cabeça
perdido no tempo.
Quantos pensamentos se passam
como passa o vento?
Velhos cenários
substituídos por tantas diferenças
uma máscara no primeiro plano.
Transmutada pelas fachadas do comércio
e pelas pessoas que passam.
Uma velha praça, sim, velha.
Recuperar um velho sentimento de
de presença.
Recuperar uma velha fronteira
de existência.
Onde será que estamos?
O que contam este velho piso
de pedras portuguesas?
O que contam estes fantasmas
que se foram?
Continuamos vivendo um viver distante.
Distante como era o nosso futuro.
Distante como é o nosso passado.
Por muitas vezes andei
por essas calçadas.
Naquelas eras
nunca sentei nesses bancos.
Carreguei por estas calçadas
todos os sentimentos
de paixões adolescentes.
Algumas das mesmas pessoas passam
com fisionomias quase irreconhecíveis.
Novas pessoas passam também
com fisionomias irreconhecíveis.
Como foi esta transformação?
Que fez o tempo?
Como se sucedeu?
O que ocorreu no meio de
todos aqueles velhos caminhos?
Fui eu que saí para longe,
em corpo e espírito.
Acho difícil retornar no tempo,
pelo menos para entender,
o percurso daquela velha linguagem.
Novas palavras serão necessárias
para devolver a chama.
Novos sentimentos devem urgir
para retomar o fio dos anos.
Mas nada trará de volta
os meus velhos mortos.
Carregam-se velhos pensamentos.
Esparrama-se a memória.
A busca do elo
de vivências interrompidas.
Um velha mensagem
sobreposta
em tons de tijolo
mais novo.
Sobrados que se remontam.
Se reconstroem.
Por aqui
não conheço nada!
Por aqui
eu conheço tudo!
De repente
visionâncias familiares
erodidas pelo tempo.
De repente
velhos comerciantes
que mudaram a fachada.
De repente
velhas fachadas
que mudaram os comerciantes.
Tanta e quanta coisa!
Aqueles velhos casais de namorados
geraram novas fisionomias
que se restauram numa
velha juventude.
Quantos gestos perdidos no tempo!
...
São tardes que se perderam.
São velhos verões medianos
vividos pela esperanças.
São velhos futuros esperados
alguns que não se impuseram.
São transformações urbanas
que se sucederam
nas fachadas dos prédios
e nos homens.
Este velho som de blues
perdido numa vitrola recente.
Talvez uma vontade premente
de presente, levou a desligá-lo.
Este fluxo de realidade
mal amanhecida.
Que o cenário não acompanhou.
Onde estamos, velhos rascunhos?
Velhos esboços de remanescências futuras.
Esta nova marca de cerveja.
Esta velha atmosfera.
Transformações.
Velhas cabeças de comerciantes.
Velhos pensamentos de ganância.
Mesmo sem concordar.
Mesmo sem discordar.
Apenas a reparar transformações.
Desconexos.
Dessintonias.
Anarquia.
Em um mundo que guarda
um velho registro antigo.
Claudio Fagundes
escrito em um banco da praça
1990
1990
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Casanova de Fellini (Il Casanova di Federico Fellini) 1976

O Casanova de Federico Fellini é um Fellini de primeira linha. É belo e sutil e, obviamente, não seria de esperar que Fellini fizesse algo grotesco. Em certos momentos do filme revisitei Satiricon, Roma e Amarcord... A festa de cenários e de trilha sonora do Nino, como sempre, se integram perfeitamente à história satírica, mas respeitosa, ao homem que conhecia as mulheres. Este, representado com maestria por Donald Sutherland, representa as cenas de sexo com a preocupação de minimizá-las frente a enorme sensibilidade feminina de Giacomo Casanova. Essa sensibilidade que o torna fisicamente um 'quase' feminino, demonstra a teoria que as mulheres desejam ser descobertas, encontradas, desveladas, em meio às fantasias de sedução que as envolve. Nisso Casanova era um mestre: a arte de desvelar uma mulher.
Não pude deixar de traçar paralelos com o Casanova de Ettore Scola, representado não menos magistralmente por Mastroianni. Mas ali também se demonstra a perfeita vocação de Giacomo de descobrir a alma feminina, fazê-la despida por completo, antes de ser invadida ou penetrada sem resistências, como uma entrega total à morte. Sim, à morte! Não são poucas as analogias que fazem o prazer supremo do desejo, comparar-se à travessia e agonia da morte. Mas sem dúvida trata-se de uma morte sublime: o encontro consigo mesmo ensejado por Eros e Psique, em poesia de Fernando Pessoa. Ou seja: o eu masculino que se encontra com o eu feminino, em meio à cópula com o sublime.
Assim, para quem saber ver a beleza. Casanova de Fellini é magnífico. E será um prazer soberano, mais uma vez, entrar nas imagens recontadas de sonhos, de quimeras que só podem ser criadas através da genialidade de Federico que, como raríssimos, conseguem adentrar em profundidade na alma feminina, tal qual o próprio Giacomo, recontado aqui e transcendente.
Claudio Fagundes
domingo, 26 de setembro de 2010
acima de tudo
se um dia
você pensar com clareza
caminhando talvez
por uma alameda do zoológico
perceberás
que vale a pena
continuar vivendo
apesar de toda
esta miséria cotidiana
saberás que o amor
é a única
verdadeira cura
ainda possível
não se perca em pequenices
das tramas meramente simbólicas
não capitule face aos pobres papéis
que a vida faz para escravizar
não se importe com isso
esqueça isso
venha com teu melhor sorriso
com tua ternura mais acolhedora
com teu olhar mais crédulo
com tuas mãos mais cálidas
tu podes fazê-lo
ressuscitar-me-ás
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
canção de amigo
há no mundo tanta necessidade de definir: problemas, soluções, futuros. não por mim. eu tenho gosto por inconclusões. tenho ânsias de eterno. desejo de ir além. pois concluir significa chegar ao fim. tenho ânsias de eterno. ao descobrir que gosto de ti, que gosto de te ter por perto. para te falar, ouvir. para te agradar, fazer-te alegre, mesmo que seja por hora, oferecer-te um pequeno bem-estar num fim de dia, ou de noite. não importa. que seja sem querer que o tempo acabe e que o momento se perpetue.
quero-te por perto para olhar nos teus olhos, não preciso decidir o que tu és para mim, nem o que serás. importa o que és, por si só, agora, neste instante qualquer. não, não quero te ter só para mim, como falam tantas canções de amor. eu quero apenas poder te achar, para ouvir teu pensamento e quem sabe sentir, se for a hora, o beijo do teu olhar, sobre o meu. não, não quero que sejas minha amada, namorada, nem nada. tenho ânsias de eterno, inconclusivo, sem fim.
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