sexta-feira, 28 de novembro de 2008
A Máscara da Verdade
Um dia, como se o tempo brincasse
de repassar a história comigo
e no chão de minha frente espalhasse
reflexos de nudez sem abrigo.
Pedaços de espelhos como lascas,
fragmentos de mim sem véu,
apontam na emoção feito facas
que não agridem, mas me fazem réu.
A consciência do real que desabrota
e o perceber da farsa cada dia,
conduzem ao julgamento que denota
o conviver entre verdade e fantasia.
E a vida ao rejeitar minhas imagens
e fazendo-me a vontade oprimida,
atira as ilusões entre as bobagens.
Tal qual verdade que não vier vestida.
Avelórios
Ela nem pode sentir o que sente,
mas no entanto, não é infeliz.
Se ela chora, nem se lembra.
Apenas junta as letras
no jogo de avelórios
e compõe beleza,
com simplicidade e gesto.
E sorri.
Quando sorri
ela me enche
de ternura
e esperança
de porvir.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Quando Longe do Mar
Quando longe do mar,
falta-me ar
e fico incompleto
de ser e estar.
Falta-me sol
sentido na pele,
calor que me toca
e me estoca de amor.
Falta-me som
no meu próprio tom,
no meu ambiente.
Falta-me sal
no beijo na boca.
Falta tempero
Falta-me luz.
Falta-me azul.
Falta-me cor.
E o odor,
o cheiro de amor
não existe no ar...
Música de Manuel Martins.
Letra de Claudio Fagundes
Claudio Fagundes - Quando Longe do Mar (Mix 2)
Nada
Um dia irei escrever mais
sobre linearidades e complexidades.
E ensinarei a você a lição
direitinho
sobre os homens
e suas parcas manhas.
Um dia, falarei para você
sobre verdades e falsidades
sobre sofismas
sobre hermenêuticas
de buscas de significados
e de sentidos. Hoje não.
Um dia, quando sentir-me disposto,
falarei de pontos de vistas,
de perspectivas,
de objetos vistos
através de cristais.
Um dia, se eu tiver saco,
explicarei que somente as estrelas
podem ser vistas através de
alguma analogia.
Só elas... que estão longe
e são intocáveis.
Um dia, se não me causares náuseas (ainda),
falarei de metafísicas e dos deuses,
dos verdadeiros, dos imaginários,
e daqueles que ainda não inventamos
para explicar a nossa profunda ignorância
de nós mesmos.
Mas hoje, eu estou cansado,
diga-me: qual foi o resultado do futebol?
Passa-me aquela cerveja choca que deixei
pela metade, e deixe-me só
- com meus arrotos, peidos e mazelas
e minha dor que através de ti é intangível -
em minha própria madrugada.
Tudo
Quando eu bebo,
bebo tudo.
O licor desejado e aquele
que ainda couber...
Talvez ainda sobre espaço para beber
para anestesiar a ressaca de ontem.
Penetrar no recinto dos fantasmas
e participar dele.
Saber-se na vertigem
das perdições inconcebíveis.
Saber-se à boca da sarjeta
os restos de lua e luz
confusa, difusa
das percepções da noite.
Sim, o absinto da visita de Netuno
com seus mares
com suas águas
onde tudo pode ser e nada é.
A ingestão do âmbar
o cheiro dos perfumes...
A náusea de saber-se
uma pequena tristeza
na multidão dos seres
na noite de todos os desesperos.
Quando eu como,
como tudo.
Como se buscasse saciar
a fome do mundo.
Como não fosse o amanhã
o construtor do prato feito.
Como se fosse necessário
criar a reserva para
as sete vacas do porvir.
Quando eu amo,
amo tudo.
Eu te quero,
e quero toda.
Quero beber e comer de ti
pois é essa a verdadeira sede
e fome a ser saciada.
Pois é esse o verdadeiro desejo
e não é só de prazer.
É a real necessidade de ter tudo
da mulher que amo.
E saber-se inteiramente contido
em cada gota de esperma,
saliva, sangue ou suor
por ti e por mim derramada
imolada, ofertada...
no perfeito ato de entrega.
Sem meias porções,
sem meias sensações
sem mascarar as ilusões
e sim esculpir na carne,
construir nas porosidades
de todos interstícios
a mistura de humores
o miscigenar de espíritos.
Assim, cada vez que eu te amar,
te amarei por inteiro
e você inteira.
E na explosão
meu gozo será com o teu
para dar todo impulso
e te encontrar.
flor escancarada,
pronta para germinar
e criar dentro de ti.
Quererei ser teu
dentro de ti. Vivo.
Vivo, carne, alma.
Ser.
Todo.
Teu.
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